Você já deve estar predizendo como termina esse relato, concluindo que o fim da minha beleza coincide com o epílogo da minha vida feliz.
Hã-hã, perdeu playboy.
Não nego, fui muito feliz na minha juventude bastante em função da minha beleza, que sem falsa modéstia era hipnotizante.
Claro que abriu muitas portas na medida em que esse mundo machista é comandado injustamente por eles.
Desde cedo tive colegas, professores, namorados, amigas, chefes, todos aos meus pés.
Por conta disso, tive toda sorte de facilidades.
Não é exagero dizer que eu não fazia nada além de cuidar da minha aparência e o resto foi consequência.
Na escola, sempre tinha um nerd ao meu lado para me socorrer nas provas.
Restaurantes e bares, nunca paguei a conta.
Roupas, meus abastados pais nunca me deixaram repetir.
Academias, pagavam para eu embelezar.
Estágios e empregos, ah, nunca me faltaram.
E claro, pretendentes tive em profusão, do berço ao altar.
O casamento com um rico e bonito homem só acendeu ainda mais o meu magnetismo.
Constituí a família perfeita, que deu continuidade à saga de me atrair todos os sortilégios.
Meus lindos filhos, como prova de que os genes também carregam a bem-aventurança, seguem pela mesma avenida asfaltada de sorte que eu trilhei.
Mas você sabe que pra qualquer um que tenha um QI razoável, e o meu é acima da média, chega a ser ofensivo, mesmo para a balzaquiana que já sou, ser apenas valorizado pelo trinômio busto, cintura e quadril.
E eu cometi, como diriam minhas afetadas amigas, a "burrice" de dar das costas para minha vida.
Larguei marido, abri mão da minha parte da fortuna, me afastei de uma vida povoada de festas, jantares beneficentes e amigas fúteis.
Fui morar fora, voltei a ser uma estudante aos 37 anos, dividindo casa com roomates de 18.
Virei a "tia" da república, a que incompreensivelmente fazia a faxina e estudava para as provas com o mesmo sorriso estampado no rosto.
Uma "tia" maluca e realizada.
Morri de saudades de meus filhos, que agora só via a cada 3 meses.
Mas toda a felicidade de comercial de margarina derreteu quando me peguei tendo que fazer tudo por mim mesma.
Não vou negar, tive a vida dos sonhos de qualquer um.
Mas meus caros, acreditem.
Felicidade demais cansa.

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