sábado, 4 de junho de 2016

Eu, modelo e roqueiro de sucesso

Não falo apenas de adolescentes imberbes e espinhentos.
Qualquer um que honra o que tem no meio das pernas invejaria minha condição: modelo e roqueiro de sucesso.
Nessa ordem, pra você não pensar que fui um roqueiro convidado para fazer pontas em desfiles depois da fama.
Primeiro nasci bonito, me tornei modelo e tive todas as mulheres que quis.
E as poucas que não me quiseram e gostam de um bom rock, tiveram uma segunda chance comigo quando me tornei um bem-sucedido empunhador de guitarras.
Sabe aquele ditado de que Deus não dá asa à cobra?
Acho que ele estava cochilando na minha concepção, pois sou um réptil voador pra lá de abençoado.
Dos 20 aos 30 anos, dividido entre passarelas e turnês da banda, tive uma vida que você, meu amigo, não conseguiria imaginar.
Fui a festas homéricas, tive a companhia feminina que quis, dei a volta ao mundo em jatinhos e iates, experimentei tudo que existe de bebida, comida e droga.
O delivery do destino se fartou de me entregar o combo completo: dinheiro, fama e mulheres à vontade.
Mas como diria minha avó, e que Deus a tenha, tudo que é em excesso faz mal.
E eu confesso que enjoei.
Em plena suruba numa suíte presidencial, eu vi tudo parar.
A vida de repente ficou em câmera lenta, o som ensurdecedor virou silêncio insuportável.
Eu estava esgotado de ser consumido por aquele ritmo frenético.
Acabei internado num hospital, com direito a sorinho na veia, sopinha e todo o cardápio do vovô que eu já me sentia.
Era um cansado, um ancião aos 30 anos.
Tanto que não deram alta, eu é que me dei alta da minha vida.
Larguei as passarelas e a banda.
Resolvi me casar, fazer família e viver recolhido numa extensa e bucólica fazendo do interior.
Em vez de pares de mamas, minha rotina agora é ordenhar vacas, sendo que só me alimento dos produtos orgânicos que produzo.
Às vezes uma ou outra groupie invade a fazenda para me assediar, mas aí reajo como um latifundiário repele um sem-terra: um delicado tiro de sal na bunda.
Na contabilidade geral tive uma vida feliz, antes e depois da fama.
Mas meus caros, acreditem.
Felicidade demais cansa.

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